VELÓRIO

velorio

Velório é uma parada tensa. Eu só frequento um velório em duas ocasiões. Se a pessoa que morreu ou algum parente dela tenha sido muito importante na minha vida, ou se eu a odiava muito. No segundo caso, vou pra me certificar de que ela esteja mesmo ali deitada.

Outro dia perguntei para um amigo:

– Você vai ao velório de fulano?

Ele me respondeu:

– Não vou. Não gosto muito de velório.

Pô, mas quem gosta de velório? A Sônia Abrão, talvez. Que tipo de ser humano acorda com a notícia de uma morte e pensa, “Uhuul, velório!?”. Se bem que, pensando bem, da até pra faltar no trabalho.

Velório é chato. Eu nunca sei o que dizer para os parentes mais próximos. Às vezes eu só dou um abraço mais longo e fico em silêncio. Muitas vezes é melhor do que falar besteira ou as coisas clichês de sempre como o tradicional, “Meus sentimentos” ou “Fica bem”.

Lembro que no velório do meu pai, apareceu gente que eu nunca tinha visto na vida. A pessoa caga pra você a vida toda, ai quando morre alguém ela aparece do nada. Lembro também que toda vez que eu ouvia a frase, “se precisar de qualquer coisa é só falar”, eu tinha muita vontade de dizer:

– Sério? 10 Mil. Agora!

Ou

– Preciso muito que você de uma cambalhota. Vou me sentir muito melhor.

Outro comentário (geralmente de uma velha) de quem não tem o que dizer:

– Tão sereno. Parece que está dormindo.

Ao escutar esse comentário eu tenho muita vontade de dizer:

– Claro que esta sua velha. E pra sempre. E a senhora muito provavelmente deve ser a próxima. Ta tão velha que se esticar os braços pro alto para se espreguiçar, Deus puxa.

Tem também a pessoa que chega próxima ao caixão e fica ali parada por um bom tempo. Todo mundo acha que ela esta fazendo uma oração quando na verdade ela ta pensando: “caramba, achei que tinha comida. Que desculpa eu vou usar pra ir embora?”.

Outro dia eu estava vendo a cobertura do velório de um ator famoso que tinha partido. Mais um exemplo de que quem não tem o que dizer, deveria ficar calado. Eu juro por Deus que uma repórter chegou para o filho do ator e fez a brilhante pergunta:

– Como é que está o clima lá dentro?

A pessoa faz cinco anos de jornalismo pra fazer isso.

Por falar em velório de pessoa famosa. Sempre tem um desgraçado que nunca ouviu falar do falecido, não sabe nem o que a pessoa fazia e resolve aparecer no enterro. Aí o repórter mais uma vez resolve entrevistar quem não deveria.

– O que você achava do José Wilker?
– Ah, eu sempre fui muito fã. Tenho todos os discos dele.

Chega uma época da vida que a gente só encontra os parentes em velórios.

Velório também é caro. Se já não bastasse a dor de perder alguém, a gente ainda tem que gastar uma baita grana num caixão e nas coroas de flores. Coroa de flores é tão cara que da vontade de pegar de volta e vender para o próximo que partir.

– Quanto você vai pagar na coroa de flores?
– R$ 300,00.
– Tenho uma coroa aqui por R$ 200,00. Ta meio murcha, mas ta bem em conta.

Todo velório tem aquele cheiro de flor. Flor é um negócio que está muito ligado a coisas ruins. Além do velório e do enterro, tem ainda o casamento. Outro exemplo de que as flores estão ligadas a coisas ruins. Quando um homem da flores para a sua namorada, assim, do nada, pode ter certeza que ele fez alguma merda.

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